Racismo estrutural é uma questão fundamental para os brancos que se declaram antirracistas.
Se você quer realmente ser antirracista, o primeiro passo é se colocar com uma postura para além do discurso: precisamos reconhecer os privilégios que a branquitude traz e quais são as nossas responsabilidades — dentre elas, qual é o engajamento necessário para a mudança dessa realidade.
Eu sugiro começarmos pelo começo: você já sabe que o Brasil foi o maior regime escravocrata do mundo, e o último país do Ocidente a abolir a escravidão, certo? E que o Rio de Janeiro foi a maior cidade escravista da história, recebendo cerca de 50% das pessoas que desembarcaram no Brasil, no Cais do Valongo?
Pois bem. Após a abolição da escravidão, a pessoa negra passa de propriedade a sujeito, mas ingressa no sistema jurídico brasileiro por meio da criminalização.
Cria-se, em 1890, um Código Penal para controlar as pessoas negras recém libertas, com um capítulo inteiro destinado à vadiagem e a capoeiragem.
Adivinha quem eram as pessoas alcançadas por esse encarceramento? Isso mesmo.
Não só não houve, à época, nenhuma política pública de inserção das pessoas egressas da escravidão na sociedade ou no mercado de trabalho, como essa normatização acaba por implementar uma segregação racial urbana, afinal, ter essa população negra “vagando” pelas ruas (leia-se: sem moradia, sem forma de subsistência, em busca de sobrevivência) era indesejável. Ainda é.
Preto e pobre na rua incomoda, né?
Então essa população – mesmo quando liberta, já estigmatizada – é deslocada para morros e periferias, distantes dos grandes centros urbanos e dos olhos das senhoras e dos senhores brancos e abastados – como uma espécie de higienização urbana, que divide as cidades por um viés econômico e racializado.
Bom, daí para frente, toda a normatização – obviamente elaborada por essa mesma lógica de poder: masculina, branca e abastada (em razão da ausência de representatividade de pessoas negras no Poder Legislativo, até os dias atuais) – deixa muito evidente que o fator raça é um determinante de desigualdade e morte no Brasil.
A falta de representatividade e visibilidade é um efeito perverso do racismo.
É necessário transformar a indignação em ações concretas, que vão além das leis e formalidades. Devemos reconhecer nossa responsabilidade pelos privilégios herdados e trabalhar para que o racismo não seja perpetuado. Precisamos refletir sobre nossa interioridade e buscar a construção de justiça e compensação histórica para as pessoas negras. É hora de despertar a humanidade em nós e trabalharmos juntos pela mudança.
É preciso estudar, entender a história e o contexto no qual estamos inseridos. Mas não adianta estudar a história da forma que nos foi contada até agora. Beba de outras fontes, considerando toda a tentativa de apagamento da história do povo negro no Brasil. Leia autores negros e entenda que a normatização pós-abolição da escravidão resultou em segregação racial e desigualdade.
